
Todos nós procuramos um lugar seguro para chamarmos de nosso. Seja um cantinho na casa dos pais, um apartamento ou uma casa, o que desejamos é poder chegar em algum lugar após o trabalho, tomar um banho e dizer estou em casa.
E quando esse lugar seguro perde telhas, sucumbe à força dos ventos e te deixa embaixo de chuva, mesmo estando dentro de casa?
Hoje, a cidade de Canoas viveu um de seus piores momentos ao enfrentar a tempestade do início da manhã. Já sabíamos que choveria, o calorzinho de julho já havia nos avisado, mas ninguém estava preparado para os dez minutos da tormenta.
Acordei sobressaltada com um estouro sobre meu telhado. Enquanto corria apressada até a cozinha, dizia ao meu marido para dar uma olhada em toda a casa. Eu tinha certeza de que algo havia se quebrado sobre nosso teto.
As rajadas de vento eram atormentadoras, a falta de energia só agravou nosso estado de alarme. Nossa rotweiller, sempre tão corajosa, se escondia num cantinho da garagem. Meu varal já era, o vento havia levado minhas roupas limpas, e quase secas, para o chão. A tempestade parecia não ter fim. Num estrondo, observamos a água começando seu trabalho no quarto que será de nossa filha. Tiramos os móveis às pressas, colocando tudo numa saleta que estava vazia. Enquanto isso, cacos de telhas, vindas do telhado de um dos vizinhos, acabou por abrir a cachoeira em frente à janela de meu quarto. A cortina ficou encharcada. Por mais toalhas que eu colocasse no chão, não tinha jeito de conter a água.

Eu estava assustada, já beirando ao pavor. Era tanto barulho que eu nem conseguia ouvir meu marido falando sobre a telha da pérgola, que estava toda quebrada e a água da chuva torrencialmente se esparramava por todos os lados do nosso futuro jardim de inverno.
Enquanto eu fazia uma prece, e tentava acender uma vela para enxergar melhor, o vento foi acalmando.
Assim como veio, se foi. Em dez minutos, numa média de 100km/h, o vento arrastou casas, árvores, derrubou postes, destelhou construções, derrubou muros, matou gente.
Depois que conseguimos controlar o aguaceiro dentro de casa e calcular os prejuízos, notamos que não havia sido nada se compararmos com a vizinhança. Ao todo, tudo não passou de algumas telhas de barro, umas de plástico e nossa antena de TV. Abri a casa, arejei tudo, sequei o piso e fui fazer café.
Enquanto eu tentava me acalmar na cozinha, meu marido saiu para conversar com os vizinhos. Estavam todos muito apavorados. Havia muita sujeira e cacos de telhas por todos os lados. Nem parecia minha rua, tranquila e organizada.
Enquanto uns se empuleiravam em escadas para ver como estavam seus telhados, outros começaram a contar onde havia poste caído, árvore arrastada, fulano sem luz, beltrano sem teto.
Tomamos um café preto, puro, e fomos à madeireira mais próxima comprar as telhas antes que outra chuva chegasse.
Resolvi levar a máquina de fotografia. Enquanto rodávamos pelas antes calmas ruas do loteamento, eu não acreditava no que via. Parecia, sim, um filme. Um daqueles que remetem ao apocalipse.
Nas ruas, havia mesmo postes caídos, árvores enormes atiradas do outro lado da rua, casas demolidas, telhas e mais telhas quebradas que haviam sido arremessadas por todos os lados.
A cidade estava em caos. Em todas as madeireiras em que estivemos, as pessoas buscavam telhas, lonas, madeiras. Em algumas, as telhas já estavam sendo vendidas somente com reserva, pois o estoque havia acabado.
As sinaleiras estavam todas desligadas. As pessoas se amontoavam nas calçadas, tentando entender o que era aquilo tudo.
Em meio ao caos, a maioria dava graças a Deus, pois só haviam sofrido danos materiais. E como disse uma vizinha, em meio a risos, telha a gente compra.
Depois de retornar para casa, me senti meio idiota e mal agradecida. Na verdade, nem havíamos sofrido avarias tão enormes assim, e eu sem confiança, desmoronava na ideia de ver meu lugar seguro ir-se pelos ares.
Mas não foi, perdeu partes, mas foi só. Mesmo assim, mesmo eu vendo o trabalho de meu marido sendo destroçado pelas águas e pela fúria do vento, pois ele mesmo construiu nossa casa, não perdi a sensação de meu lugar seguro, meu porto, minha identidade.
E fico a imaginar as centenas de pessoas que realmente perdem tudo, mesmo que esse tudo nos pareça tão pouco. Não são apenas os móveis, as roupas e as fotografias que se vão, é toda a vida da pessoa, tudo o que ela sempre foi até aquele momento.
Vendo as pessoas nas ruas meio atônitas com o ocorrido, fiquei pensando em como sou feliz, em como estou segura, não por ter uma casa, mas por ter, além do material, o sentimento de lar, de pertença, de estar no mundo.
Poder retornar, ter para onde ir ao final de um dia de trabalho ou de qualquer outra atividade dá a nós, seres humanos, a certeza de existirmos, independente de quão grande ou quão pequena seja nossa moradia.
Num dia como o de hoje, ficam minhas preces para que todos os canoenses possam retornar para seus lugares seguros, sejam eles quais forem, estejam eles em que estado estiverem, desde que não percam e não se esqueçam de quem são.
Fotos tiradas no Bairro Olaria, Canoas, no dia 12/07/2010.